sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Golpes de Wing Chun: Lan

Um dos principais atributos alegados do Wing Chun enquanto arte marcial de vanguarda foi a ideia de que você pode defender e atacar em um só movimento. Surpreender o adversário quebrando o tempo dele, entretanto, não é algo muito fácil de se fazer na prática. Muitas vezes, no meio do caminho, deparamos com a necessidade de nos protegermos de golpes inesperados ou refazermos uma estratégia no calor do momento até que possamos ter uma oportunidade de impormos o nosso jogo. Porque também somos passíveis de sermos surpreendidos.
Se você consegue fazer LAN  , (barrar, impedir ou ainda obstruir em português) um dos conceitos defensivos mais importantes dentro do sistema, significa que está preparado para imprevistos, e, às vezes, se defende deles sem necessariamente ter de esperar pelo perigo e se moldar a ele, mas antecipá-lo assim que a tendência do "perigo" o levar para lá, o que é considerado o máximo da estratégia de combate de nossa arte, a arte de se cobrir. Quem se cobre faz a defesa antes mesmo do ataque chegar, pois do contrário você faz um bloqueio e bloquear quase nunca dá certo em Wing Chun.

Na foto abaixo temos uma foto minha na base conceitual do Wing Chun Yee Je Kim Yeng Mah executando Lan Da (barrar com batida) tal como é conceitualmente concebido não apenas no Wing Chun de muitos estilos mas em outras lutas chinesas também.


Agora gostaria que os praticantes de Wing Chun observassem bem o que digo, ainda que alguns torçam o nariz para isso: a tendência do Wing Chun de lançar contra-golpes de baixo para cima cria uma janela de ataque para o adversário a partir da linha dos ombros que traz a necessidade de complementar o repertório defensivo na parte alta para ser executado inclusive durante a troca de golpes, uma vez que esta janela seria, em outro estilos, ocupada pelo posicionamento natural dos socos horizontais e posicionamento de perna dos golpes circulares em geral. Por isso defesas como Bong Sao e Lan Sao cumprem praticamente o mesmo papel, embora em contextos simbólicos e práticos diferentes. Para o iniciante, o Lan Sao (Braços que barram, ou atravancam ou obstruem) é visto pela primeira vez logo na primeira na forma, Sil Lin Tao (Pequena Ideia Inicial), como faz meu estudante privativo pernambucano Dido na foto abaixo:



O golpe é executado na prática com o defensor literalmente escorando violentamente seu antebraço de encontro ao agressor com o apoio do ombro e do movimento para frente do corpo, seja contra seu corpo, a fim de pará-lo, atingindo-o para isso tronco ou pescoço, seja a seus braços, como forma de antecipar a saída de um ou os dois braços do adversário em forma de socos, ou ainda usando a posição defensiva apenas ocupando a posição horizontal para cobrir a área, fazendo que se choque com o ataque em curso. 




Acima eu demonstro a posição do corpo para a aplicação prática da técnica original. Repare que como o braço na horizontal em si ainda deixa muito espaço exposto, de forma que eu busco colocar o queixo, uma região frágil, apoiado no espaço anatômico natural entre o ombro e o peitoral, deixando exposta apenas a parte mais forte da cabeça, enquanto faço um ataque que pode ser tanto com o soco tradicional do Wing Chun quanto com um soco gancho (Pin Choi). A idéia é que se, por exemplo, eu defender com um Pak Sao (tapa) um soco e a outra área ficar exposta, eu deva correr e me fechar antes mesmo que aconteça a sequência de ataque do adversário. 

Logo abaixo meu aluno João Gilberto consegue a façanha rara de captar meu uso de Lan Sao como simples cobertura de espaço enquanto foco mais no ataque. Ao executar Soh Gerk (Chute de Varredura) protejo meu abdome do que poderia ser um uppercut (muito usado pelos tailandeses quando lutam conosco na china contra esse golpe) num evento esportivo, ou uma paulada ou facada, com Gun Sao (vide primeira forma) enquanto exploro todo o poder que um chute deste, calçado, pode acarretar no tornozelo de um desavisado na luta irrestrita. O lutador deve projetar o quadril para a frente, e fazer um movimento parecido com o jogador de futebol que chuta rasteiro e trazer as pernas em direções opostas, como um alicate, abaixando subitamente no final. No momento do impacto todo meu corpo está envolvido na ação, repare como o pneu se deforma, tendo o executante de mediar a força para não chocar-se demasiado contra a parede.




Contudo o conceito de Lan não aborda apenas sua expressão com os braços, mas é também usado de outras formas no sistema. Por exemplo, existe uma pratica muito perigosa e inocente dos praticantes de Wing Chun quererem pisar todos os chutes que partem do adversário. Quem luta de verdade sabe que, embora a técnica possa ser aplicada, e aplicada com mais facilidade quanto mais leigo é seu opositor, você deve proteger o restante do corpo enquanto faz isso, pois se perder o "timming" do golpe, poderá ser atingido em outra região do corpo, de forma que em nossa escola Applied Wing Chun quando nos cobrimos contra chutes, quer tenhamos ou não a intenção de pisar nos colocamos primeiro em condições de "barrar" o oponente. Vide foto abaixo:



A foto acima demonstra uma postura que também pode ser chamada de Lan Gerk (Pernas que obstruem). Infelizmente como a foto não foi tirada de um movimento natural o corpo não está totalmente bem posicionado, mas pelo menos o suficiente para demonstrar o poder defensivo de um verdadeiro Wing Chun para combate, que não subestima o poder de fogo de outras artes nem faz do praticante um advinho ou medium, pois uma vez que erre a pisada o praticante está relativamente protegido. Repare que desde o joelho até a cabeça todo um lado está "fechado". Caso chute nas costelas, o adversário enfrentará o encontro do joelho com o cotovelo, algo que gera uma tremenda dor. A mão esquerda que ajuda a direita a fazer uma escora na defesa Tan Sao, mais frágil, também pode ficar com o cotovelo mais alto em Lan e cobrir a cabeça.


Por fim, apenas para mostrar que os conceitos do sistema fluem também das armas para as mãos livres e vice-versa, executo com o bastão longo do Wing Chun, Luk Dim Boon Kwan (Bastão de Seis Pontos e Meio) o movimento Lan Kwan (Barrar com Bastão), que uma vez bem executado conduzirá o praticante, em qualquer situação, a um cruel e não raro mortal contra ataque (não, se você usar com as mãos livres não vai matar o cidadão, antes que alguém comece falar que armas deixam as mãos "afiadas" e todo aquele besteirol de alguns alienados do wing chun de sempre).

Peço desculpas por ter ficado tanto tempo sem escrever por aqui. Ainda vou escrever um texto só para ele, mas fica aqui a expressão da nossa dor, minha e de todos os meus alunos, da nossa saudade do meu aluno, amigo e policial incansável Eduardo Rafael. Este artigo é dedicado à sua memória.

7 comentários:

Fernando disse...

Muito bom e em linguagem simples como sempre.

Parabéns Sifu Marcos

Mostarda Ving tsun disse...

Texto claro, conciso e o conceito da aplicação é preciso ! Muito bom Sisok

Ilo disse...

Mais um excelente artigo!
Eu realmente fico impressionado com a qualidade desses artigos. Num futuro próximo, bastará compilar os textos já escritos e teremos uma obra indispensável para quem quer conhecer, e, principalmente, ENTENDER o Wing Chun!

Parabéns Sifu Marcos!

Si Hing Airson Negro disse...

Parabéns novamente Si Sok, artigo muito claro como sempre e com precisão de quem têm profundo conhecimento prático sobre o assunto, dando um peso muito maior por trás de suas palavras! Será sempre um grande prazer poder absorver um pouco do conhecimento arduamente conquistado pelo senhor e compartilhado com tanta atenção!
Um Grande Abraço!

Rogerio disse...

Parabéns, eu sempre levo a sério pois é uma pessoa que realmente tem conhecimento e não usa de palavras complicadas pra explicar uma coisa simples....

uniesquinasebovirtual disse...

Muito bom!Si Fu Marcos conseguiu de maneira sucinta e clara traduzir um dos principais conceitos do Wing Chun. É um texto que merece ser estudado pois pode ter seus principios aproveitados em outras artes marciais e mesmo fornecer inspiração tática para várias outras situações na vida.Assim é o Wing Chun.

Sifu Marcos. disse...

Oi,

Gostaria de agradecer a meus alunos e sobrinhos kung fu pelos comentários, que me deixaram, como sempre, feliz. Como disse meu SiJuk Airson, houve um grande esforço para conseguir ter o nível de habilidade que tenho hoje, mas creio que outras pessoas também o fizeram.

A diferença é que eu tento manter uma postura mais próxima das pessoas, mesmo correndo o risco real de não ser valorizado por isto, porque por algum motivo, quando mais distante e elitista seja o sujeito mais o brasileiro baixa as calças. Eu tive chances que poucas pessoas fizeram, e acho que posso passar algo a elas sem me diminuir ou desvalorizar. Acho que está na hora dos mestres no Brasil adotarem um outro modo de lidar com o público.

Temos de ver os leigos e praticantes não apenas como clientes em potencial, mas parceiros numa busca que vai além dos nossos objetivos mais imediatos, e que ser mestre de kung fu não é assim nada demais. Mas não foi isso que vivenciei como praticante, por isso tento ir na contramão do que se faz em nosso país.

Gostaria que mais pessoas que me leem neste blog comentassem, criticassem e trouxessem questões interessantes. Existe muito pouca discussão técnica no nosso meio (não que a questão cultural também não seja importante) e quero que isto seja um canal também para isto. Dá trabalho e consome tempo não só meu como de meus alunos, mas creio que vale a pena.

Obrigado,
Marcos.